Sucata eletrônica vira arte na Alesc e expõe o custo do descarte
Mostra criada por jovens de Criciúma com placas, fios e teclados fica em cartaz até 28 de outubro em Florianópolis, enquanto o Brasil gera 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano.
Em números
- 15 a 28/10
- período de visitação da mostra “Da Sucata à Crítica”, no Espaço Cultural Cruz e Sousa, na Alesc, em Florianópolis
- 2,4 milhões de t
- lixo eletrônico descartado pelos brasileiros em um ano, 15% acima do ano anterior, segundo levantamento da ONU
- 62 milhões de t
- e-lixo gerado no mundo em 2022, com apenas 22,3% formalmente coletado e reciclado
- US$ 91 bilhões
- valor bruto dos metais contidos nesse resíduo global
- 230.576 t
- resíduos eletroeletrônicos coletados e destinados pela operação da Abree entre 2021 e 2025
Placas de circuito, fios, teclados e peças que viraram entulho digital ganharam moldura institucional em Florianópolis. A exposição “Da Sucata à Crítica” ficará aberta à visitação no Espaço Cultural Cruz e Sousa, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, de 15 a 28 de outubro, segundo a Alesc. As obras foram criadas por estudantes dos cursos profissionalizantes do Bairro da Juventude, de Criciúma, com curadoria e orientação do educador Macsuel de Bona.
De acordo com a Assembleia, a mostra parte de resíduos eletrônicos que perderam a função original para discutir consumo, desumanização, conflitos mundiais e impacto ambiental da era digital. O percurso criativo foi coletivo: os jovens separaram o material, planejaram as peças, testaram montagens e definiram o resultado final. Antes de chegar à capital, a exposição foi apresentada na própria instituição, em Criciúma, para estudantes, educadores e visitantes.
Cultura maker com matéria-prima descartada
O ponto que interessa a quem trabalha com criação e inovação é o método. Em vez de comprar insumos, o grupo usou o que seria descarte — uma lógica de prototipagem barata que empresas de design e agências aplicam há anos sob outro nome. A Rádio Alesc informou que as peças reúnem placas de computador, fios e teclados descartados, e ouviu Macsuel de Bona, apresentado como facilitador de Tecnologias Inovadoras e Criativas da instituição, além de um dos estudantes autores.
O projeto também circula fora do circuito expositivo. Segundo a ANPEd, associação nacional de pesquisa em educação, “Da Sucata à Crítica” está entre as obras premiadas em seu concurso artístico-cultural de 2026, com a descrição de um trabalho que alinha cultura maker e sustentabilidade para tratar de descarte de resíduos e conflitos mundiais. O Bairro da Juventude, mantenedor dos cursos, atende cerca de 1,6 mil crianças, adolescentes e jovens de 89 bairros de Criciúma e região, conforme reportagem do ND Mais.
O pano de fundo: uma montanha de metal caro jogado fora
A escolha do material não é figura de linguagem. O relatório Global E-waste Monitor, produzido pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) e pelo Unitar, aponta que o mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, alta de 82% sobre 2010, com apenas 22,3% desse volume documentado como coletado e reciclado de forma adequada. A projeção é chegar a 82 milhões de toneladas em 2030, com a taxa formal de reciclagem caindo para 20%.
O valor desperdiçado é material: segundo o mesmo relatório, os metais embutidos nesse resíduo valiam US$ 91 bilhões, com destaque para cobre, ouro e ferro. No Brasil, o descarte chegou a 2,4 milhões de toneladas em 2024, 15% a mais que no ano anterior, de acordo com reportagem do Diário do Comércio baseada nos dados da ONU. O país aparece entre os maiores geradores do mundo e, como mostrou o Brasil de Fato, apenas cerca de 3% do material recebe destinação correta.
Onde isso bate no caixa das empresas
Para quem tem CNPJ, o tema deixou de ser pauta ambiental e virou obrigação operacional. A Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida do produto, e o Decreto 10.240/2020 regulamenta a logística reversa de eletroeletrônicos de uso doméstico. Entre 2021 e 2025, a operação da Abree, entidade gestora do sistema coletivo, viabilizou a coleta e a destinação adequada de 230.576 toneladas de resíduos, com mais de 7 mil pontos de recebimento em pelo menos 1.500 municípios, segundo balanço divulgado pela associação.
Três leituras práticas saem daí:
- Troca de parque tecnológico: renovar notebooks, celulares e impressoras exige plano de destinação. Encaminhar equipamento a ponto de recebimento credenciado reduz risco jurídico e de vazamento de dados.
- Marca e narrativa: projetos que transformam descarte em produto ou conteúdo rendem mais do que campanhas genéricas de sustentabilidade, porque mostram o processo e não só o discurso.
- Formação de talento: oficinas de reaproveitamento eletrônico desenvolvem repertório técnico e criativo ao mesmo tempo, algo que interessa a indústrias e provedores que contratam na ponta.
O que observar
A mostra catarinense é pequena em escala e grande em sinal: mostra que a discussão sobre obsolescência saiu do relatório corporativo e entrou no espaço público, inclusive dentro do Legislativo. Quem empreende em design, educação, cultura ou tecnologia pode olhar o caso como modelo replicável — parceria entre instituição social, poder público e empresas doadoras de material tem custo baixo e devolve visibilidade a todos os envolvidos.
Na prática, vale fazer duas coisas nas próximas semanas: mapear onde o lixo eletrônico da sua operação está indo hoje e verificar se há ponto de recebimento credenciado na sua cidade. E, se estiver em Florianópolis até 28 de outubro, a visita à Alesc é um atalho para entender o assunto por outro ângulo.
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