Mulheres são 34% dos empreendedores e só 18% das startups
Brasil tem 10,4 milhões de donas de negócio, mas elas estão em 18% das startups da base do Sebrae e só 8% de quem decide cheque em fundo de VC é mulher.
O Brasil tem 10,4 milhões de mulheres donas de negócio, o equivalente a 34% dos empreendedores do país, segundo levantamento do Sebrae. Quando o recorte muda para startups, porém, o número despenca: elas aparecem no quadro societário de apenas 18% das empresas cadastradas na plataforma Sebrae Startups, conforme reportagem da Folha de Curitiba publicada na semana do Dia Nacional da Inovação, celebrado em 19 de outubro. A diferença entre os dois números resume o problema: mulheres empreendem muito, mas chegam pouco ao modelo de negócio que depende de capital de risco.
Em números
- 10,4 milhões
- mulheres donas de negócio no Brasil, segundo o Sebrae
- 34%
- a fatia que elas representam entre os empreendedores do país
- 18%
- das startups cadastradas no Sebrae Startups têm mulher na sociedade
- 8%
- dos decisores de fundos de investimento no Brasil são mulheres, diz o Insper
- 5,2%
- das cadeiras de CEO nas maiores empresas brasileiras são ocupadas por mulheres
A conta de 4.282 startups
Esse percentual de 18% corresponde a 4.282 negócios com presença feminina no quadro societário, em cenário atualizado em fevereiro de 2026, informa a Agência Sebrae de Notícias. O dado está em linha com o mapeamento da ABStartups, que apontou 19% de fundadoras em 2024. Vale observar o recorte: outro levantamento do Observatório Sebrae Startups, com base ampliada, chega a 31% de startups com uma mulher entre as fundadoras em 2025 — contra 8,65% em 2023, salto puxado por programas de mentoria e capacitação.
Para quem acompanha o ecossistema, a leitura prática é que a entrada melhorou, mas a permanência e o acesso a capital não acompanharam no mesmo ritmo. Segundo o Sebrae, a maior parte das startups com fundadoras ainda está nas fases de ideação e validação, justamente os estágios em que o cheque é menor e mais difícil.
A desigualdade começa antes do pitch
Para Marilucia Pertile, CEO e cofundadora da aceleradora e investidora Start Growth, de Curitiba, o gargalo não nasce na sala do investidor. Em entrevista reproduzida pela Folha de Curitiba, ela afirma que "a diferença nasce antes do pitch" e explica que o modelo de venture capital exige três ativos distribuídos de forma desigual: rede de contatos, acesso a capital de risco e apetite para risco alto. Ou seja, antes de avaliar a tese, o mercado já filtrou quem conseguiu chegar à mesa.
O outro lado do balcão ajuda a explicar o funil. De acordo com a Carta das Mulheres na VC, do Insper, citada na mesma reportagem, apenas 8% dos decisores em fundos de investimento no Brasil são mulheres. Quem assina o cheque define o padrão de startup que parece "investível" — e a ausência de referências femininas em rodadas, segundo a executiva, reduz também a chance de outras fundadoras enxergarem o caminho até uma saída.
O reflexo aparece no dinheiro. Um levantamento do portal Startups mostrou que, entre as maiores gestoras de venture capital do país, startups com mulheres entre os fundadores somavam 19,54% das empresas investidas, mas ficaram com 11,83% do valor aportado — R$ 176,4 milhões de um total de R$ 1,49 bilhão. O mesmo material cita o Female Founders Report, do Distrito com Endeavor e B2Mamy, segundo o qual mais de 60% das fundadoras já foram questionadas por investidores se teriam condições de tocar o próprio negócio.
Onde a participação feminina já é maior
Há bolsões em que o quadro se inverte. Nas deep techs apoiadas pelo Sebrae, 43% dos projetos aprovados no programa Catalisa ICT são liderados por mulheres, percentual que se mantém até as etapas finais, segundo a Agência Sebrae. Em startups de impacto socioambiental, a participação chega a 21%. E, na edição 2025 do Prêmio Sebrae Startups, 44% das mil selecionadas tinham mulheres entre as fundadoras.
O padrão é consistente: onde existe programa estruturado, com edital, mentoria e conexão com mercado, a presença feminina cresce e se sustenta. O que ainda trava é o passo seguinte. No mesmo recorte do prêmio, 81,3% das startups buscavam investimento e 56,4% nunca haviam captado venture capital.
O teto também é corporativo
A barreira não se limita ao empreendedorismo. O estudo Women at the Top 2026, do Evermonte Institute, apontou que mulheres ocupam 5,2% das cadeiras de CEO nas maiores empresas brasileiras. O levantamento analisou 2.153 companhias e 216 perfis de presidentes a partir de dados públicos. Segundo a Exame, as executivas pesquisadas acumulam em média 2,79 MBAs e pós-graduações, quase o dobro da média dos homens (1,43) — e levam praticamente o mesmo tempo para chegar ao topo.
O que observar daqui para frente
Para fundadoras em captação, três movimentos aparecem com clareza nos dados e nas falas do setor:
- Levar número, não narrativa. Domínio das próprias métricas, produto validado e clientes pagantes reduzem o espaço para o viés na banca.
- Escolher a porta certa. Editais e programas de aceleração com ações afirmativas — o Prêmio Sebrae Startups 2026 dá bonificação de 2% na nota a sócios de grupos sub-representados — funcionam como atalho de acesso à rede que o VC exige.
- Mapear quem decide. Com 8% de mulheres nos comitês, vale pesquisar antes quais fundos já investiram em times mistos e qual é o ritual de cada processo de captação.
Para gestores e investidores, o recado é outro: se a participação feminina salta para 43% em programas com triagem estruturada, o problema não é falta de empreendedora qualificada — é desenho de funil. Acompanhe os próximos relatórios do Observatório Sebrae Startups e da ABStartups para ver se o avanço na base finalmente começa a aparecer nos cheques.
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