Paracatu pode receber data center de R$ 35 bi
Projeto da Atlas Renewable Energy prevê complexo de 1 GW em Minas Gerais, com energia solar e foco em IA. Consumo de água gera preocupação.

Em números
- 1 GW
- capacidade do complexo de data centers
- R$ 35 bi
- investimento estimado
- 1,2 mi L/dia
- consumo de água previsto em operação máxima
Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, pode se tornar um dos principais polos de tecnologia do Brasil com a instalação de um gigantesco complexo de data centers. A Atlas Renewable Energy, empresa do grupo Global Infrastructure Partners (GIP) — adquirido pela BlackRock em 2024 — protocolou três pedidos de conexão à rede elétrica junto ao Ministério de Minas e Energia (MME) para viabilizar o empreendimento. A estrutura teria capacidade de gerar 1 gigawatt (GW) de energia dedicada ao processamento de inteligência artificial (IA) e computação em nuvem, com um investimento estimado em R$ 35 bilhões, segundo documentos analisados pelo Intercept Brasil e pela Mongabay segundo a Webtv Paracatu.
O projeto ainda está em fase preliminar, e a empresa não confirmou oficialmente todos os detalhes. Em nota ao Diário do Comércio, a Atlas afirmou que avalia oportunidades de investimento, mas que decisões sobre a implantação dependem de análises de impacto local, disponibilidade de recursos e viabilidade socioambiental. A companhia não respondeu a questionamentos sobre cronograma, valor exato do investimento ou detalhes técnicos.
O Ministério de Minas e Energia confirmou que os pedidos foram protocolados em 15 de outubro de 2025 e fazem parte de um total de seis solicitações em Minas Gerais — três em Paracatu e três em Janaúba — somando 2 GW de demanda projetada. Os dados, no entanto, estão sob sigilo solicitado pelas empresas, e o MME ressalta que os valores podem sofrer revisões até a assinatura do contrato de conexão ao sistema de transmissão.
Infraestrutura e energia verde como diferencial
O complexo em Paracatu seria dividido em três módulos, com operação parcial prevista para dezembro de 2027 e conclusão total até 2030. A estrutura incluiria 13 edifícios dedicados ao processamento de dados, atendendo grandes empresas globais de IA e cloud computing. A energia para abastecer o centro viria de usinas solares já operadas pela própria Atlas na região, reforçando um modelo de autossuficiência energética e baixo carbono.
A empresa já opera dois grandes parques fotovoltaicos no município e prepara um terceiro. A possibilidade de usar energia localmente pode reduzir perdas e o chamado curtailment — quando o excesso de geração é cortado por falta de demanda. Segundo o MME, projetos como esse ajudam a equilibrar a oferta e demanda no sistema elétrico, especialmente em regiões com alta geração solar.
Impacto local e preocupações hídricas
Apesar do potencial econômico, o projeto levanta alertas, especialmente quanto ao uso da água. Conforme reportagem do Intercept Brasil e Mongabay, citada pela Webtv Paracatu, o complexo poderia consumir até 1,2 milhão de litros por dia em operação máxima — o equivalente a 438 milhões de litros por ano. Esse volume é comparável ao consumo diário de uma cidade de médio porte.
O cenário hídrico em Paracatu é sensível: cerca de 80% do território enfrenta conflitos pelo uso da água, pressionado por mineração e agricultura irrigada. Além disso, o Brasil ainda não possui uma regulamentação ambiental nacional específica para data centers, o que aumenta a necessidade de estudos de impacto detalhados. A ausência de regras claras exige que empresas e autoridades atuem com transparência para evitar tensões sociais.
O que isso muda para quem empreende
- Interiorização da infraestrutura digital: Projetos como o de Paracatu mostram que o Brasil está atraindo grandes centros de dados para fora dos grandes centros urbanos. Regiões com energia limpa, espaço disponível e custos competitivos ganham destaque — uma oportunidade para empreendedores que buscam escalabilidade com sustentabilidade.
- Pressão por eficiência hídrica: O Redata, regime especial de tributação para data centers, exige critérios de sustentabilidade. Empresas de tecnologia devem investir em soluções de resfriamento inovadoras, como circuitos fechados ou uso de água não potável, para atender a exigências legais e sociais.
- Parcerias locais como vantagem competitiva: Projetos de grande porte exigem aceitação social. Empreendedores que atuam em tecnologia devem considerar parcerias com comunidades locais, como treinamento de mão de obra e contratação regional, para fortalecer o apoio ao empreendimento.
- Atenção a regulamentações emergentes: Com a ausência de leis específicas, cada novo projeto pode influenciar a criação de normas. Empreendedores devem monitorar decisões locais e federais, especialmente no âmbito ambiental e de uso de recursos naturais.
- Oportunidade para startups de climatetech: A demanda por gestão eficiente de energia e água abre espaço para inovação. Startups focadas em monitoramento hídrico, otimização energética ou resfriamento sustentável podem se posicionar como parceiras estratégicas nesses grandes empreendimentos.
O avanço do projeto em Paracatu será um termômetro para o futuro dos data centers no Brasil. Se bem conduzido, pode se tornar um modelo de integração entre tecnologia, energia limpa e desenvolvimento regional. Se mal planejado, pode agravar conflitos hídricos e gerar resistência social. Para quem empreende, a lição é clara: inovação precisa andar lado a lado com responsabilidade.
O que observar nos próximos meses
O próximo passo será a divulgação dos estudos de impacto ambiental e a definição oficial da viabilidade do projeto pela Atlas. Também está em pauta a aprovação de regulamentações nacionais para data centers, impulsionadas pelo Redata. Empreendedores devem acompanhar as decisões do MME, a posição de autoridades locais e a reação da sociedade civil em Paracatu — um cenário que pode definir o rumo da digitalização sustentável no Brasil.
https://diariodocomercio.com.br/economia/paracatu-data-center-atlas-energy/ https://paracatu.net/39061/atlas-planeja-complexo-de-data-centers-em-paracatu/ https://www.webtvparacatu.com.br/noticias/19503-projeto-de-data-center-em-paracatu-gera-preocupacao-com-recursos-hidricosNúcleo de apuração do Pulso. Acompanha o noticiário de negócios e tecnologia e reescreve os fatos com as fontes citadas e linkadas.
