Vagas de execução caem 13% e as de julgamento sobem 20%, diz Harvard
Estudo com quase todas as vagas abertas nos EUA mostra um mercado partido em dois: a rotina encolhe e o julgamento cresce. No Brasil, as vagas que pedem IA quase triplicaram em um ano.
O mercado de trabalho não está sumindo por causa da inteligência artificial. Ele está se partindo em dois. Depois do lançamento público do ChatGPT, em novembro de 2022, os anúncios de vagas para ocupações feitas de tarefas estruturadas e repetitivas caíram 13% nos Estados Unidos. No mesmo período, a demanda por funções que exigem trabalho analítico, técnico ou criativo — aquelas em que a máquina ajuda, mas quem decide é gente — cresceu 20%. Os números vêm de um working paper assinado pelo professor Suraj Srinivasan, da Harvard Business School, divulgado pelo HBS Working Knowledge e destacado no Brasil pela StartSe.
Em números
- 13%
- queda nas vagas de ocupações repetitivas nos EUA após o ChatGPT
- 20%
- alta nas vagas de ocupações que a IA tende a complementar
- 182,3 mil
- vagas com competências em IA abertas no Brasil em 2025, contra 63,3 mil em 2024
- 3,6%
- fatia dessas vagas no total de anúncios do país, ante 1,1% no ano anterior
- 62%
- prêmio salarial médio global para quem domina competências em IA
O que o estudo mediu, de fato
O trabalho se chama Displacement or Complementarity? The Labor Market Impact of Generative AI e foi escrito por Srinivasan com Wilbur Xinyuan Chen, da HKUST, e Saleh Zakerinia, da Ohio State. Segundo o HBS Working Knowledge, os pesquisadores analisaram anúncios de emprego de 2019 até março de 2025, usando uma base que cobre praticamente todas as vagas abertas nos EUA. O paper foi divulgado pela primeira vez em dezembro de 2024 e atualizado em agosto.
A conclusão central, relatada também pela Harvard Business Review, é que a IA generativa está remodelando o trabalho de colarinho branco, e não apagando esse trabalho de forma uniforme. As funções com maior potencial de serem ampliadas pela tecnologia costumam envolver mais habilidades sociais e técnicas de mão na massa. Srinivasan cita exemplos como analistas financeiros, microbiologistas e neuropsicólogos clínicos: a máquina processa e avalia os dados, mas a decisão final continua humana.
Há um segundo achado tão relevante quanto o primeiro: o número de competências automatizáveis pedidas nos anúncios vem caindo, enquanto competências ligadas à IA — escrever bons comandos, operar ferramentas, validar resultados — sobem de forma consistente. Ou seja, mesmo dentro da mesma vaga, a descrição do cargo está mudando de conteúdo.
No Brasil, a divisão tem contornos próprios
O movimento não é só americano. O Barômetro de Empregos de IA 2026 da PwC, que analisou mais de um bilhão de anúncios de vagas em seis continentes e 27 países e territórios, mostra que a contratação de profissionais com competências em IA quase triplicou no Brasil entre 2024 e 2025. Foram 63,3 mil vagas em 2024 contra 182,3 mil em 2025, alta de 188%, segundo o recorte brasileiro detalhado pelo Computer Weekly. A participação dessas oportunidades no total de anúncios saltou de 1,1% para 3,6%.
Vale ler o dado com cuidado, porque a PwC aponta um contexto menos eufórico: no Brasil, o quartil de ocupações mais exposto à IA respondeu por 2,5 milhões de vagas em 2025, quatro vezes mais do que o quartil menos exposto — mas todos os quartis registraram queda no número de vagas entre 2024 e 2025, sinal de retração generalizada na contratação. O crescimento, portanto, é de composição: dentro de um bolo menor, a fatia que pede IA e critério humano aumentou.
A consultoria também observa que as novas tarefas incorporadas às funções mais expostas à IA têm 2,5 vezes mais chance de depender de competências como empatia, julgamento e criatividade, conforme registrou o Experience Club. O setor de tecnologia, mídia e telecomunicações lidera, com cerca de 13% das vagas abertas ligadas à tecnologia.
A porta de entrada é o ponto mais frágil
O dado mais desconfortável do barômetro global da PwC está no início de carreira. Nos Estados Unidos, vagas de entrada em ocupações muito expostas à IA têm sete vezes mais probabilidade de exigir competências tradicionalmente sêniores, como julgamento e liderança. Esses postos cresceram 35% desde 2019, enquanto as demais vagas de entrada recuaram 10%.
A leitura da PwC é direta: a IA está removendo justamente o trabalho rotineiro que funcionava como aprendizado prático, o velho estágio informal em que alguém erra barato e aprende a decidir. Se a empresa elimina esse degrau sem criar outro, ela ganha eficiência agora e fica sem quadro sênior daqui a cinco anos.
Do lado do bolso, o estudo global aponta que vagas que pedem competências específicas em IA crescem quase oito vezes mais rápido (69% desde 2019) do que o mercado total (9%), com prêmio salarial médio de 62% para quem tem essas habilidades.
O que fazer com isso
Para quem contrata ou empreende, três movimentos práticos saem desses números:
- Separe rotina de julgamento em cada processo. Mapeie qual fração do trabalho é repetível e qual exige critério. A primeira parte vira automação; a segunda precisa ser desenhada, treinada e remunerada como diferencial.
- Reescreva a vaga antes de cortá-la. Segundo o achado de Harvard, a demanda não caiu em bloco: caiu em ocupações repetitivas e subiu nas que combinam análise, técnica e criatividade. Reposicionar o cargo costuma custar menos do que demitir e recontratar depois.
- Recrie o degrau de entrada. Se a IA comeu o trabalho de aprendiz, alguém precisa inventar outra forma de o jovem exercer julgamento cedo — revisão de output de IA, contato com cliente, participação em decisões pequenas com risco controlado.
Para quem está na ponta da carreira, o recado é igualmente concreto: dominar ferramentas de IA virou condição de entrada, não diferencial. O diferencial está em decidir bem quando o sistema entrega três respostas plausíveis. Vale acompanhar as próximas atualizações do estudo de Harvard e o recorte brasileiro da PwC, que mostram se essa tesoura entre execução e julgamento continua abrindo — e quanto tempo o mercado dará para cada um se reposicionar.
Núcleo de apuração do Pulso. Acompanha o noticiário de negócios e tecnologia e reescreve os fatos com as fontes citadas e linkadas.