Rappi vale US$ 5,25 bi há cinco anos — e agora mira o IPO
O valuation de US$ 5,25 bilhões da Rappi vem da rodada de 2021 e segue de pé em 2026, segundo a CB Insights. O que isso diz sobre dinheiro caro e disciplina de caixa.
O número que voltou a circular nesta semana tem cinco anos de idade — e é justamente isso que o torna interessante. A Rappi é avaliada em US$ 5,25 bilhões desde julho de 2021, quando a colombiana de entregas anunciou uma rodada de mais de US$ 500 milhões liderada pela gestora americana T. Rowe Price. Segundo o TechCrunch, a Série F teve ainda Baillie Gifford, Third Point, Octahedron, GIC e SoftBank. O detalhe que importa para quem acompanha o mercado: essa etiqueta de preço não se moveu desde então.
Em números
- US$ 5,25 bi
- valuation da Rappi, definido na rodada de 2021 e ainda usado como referência
- US$ 500 mi
- tamanho da rodada liderada pela T. Rowe Price
- US$ 5,10 bi
- valor do QuintoAndar, segundo colocado no ranking da CB Insights
- R$ 1,4 bi
- o que a Rappi prometeu investir no Brasil até 2028
De onde vem a etiqueta de US$ 5,25 bilhões
Na época do anúncio, segundo o TecMundo, a empresa fundada em 2015 em Bogotá já havia captado mais de US$ 2 bilhões desde a criação e operava em mais de 250 cidades da América Latina. O aporte anterior, também com participação da T. Rowe Price, havia sido de US$ 300 milhões, em 2020. Era o auge do dinheiro barato: fundos globais de bolsa entravam em empresas privadas pagando múltiplos que hoje soam distantes.
O que veio depois é conhecido por qualquer fundador que tentou captar entre 2022 e 2024. A correção nos valuations de tecnologia interrompeu a sequência de rodadas cada vez maiores, e a Rappi passou a se financiar de outras formas. Em agosto de 2025, de acordo com a Exame, a companhia levantou US$ 100 milhões para reforçar a expansão regional, operando hoje em nove países e mais de 350 cidades, com o Brasil como terceiro maior mercado, atrás de Colômbia e México. Conforme o portal Startups, a captação foi em dívida, com Kirkoswald e Santander, e a empresa acumula mais de US$ 2,4 bilhões levantados em 13 rodadas ao longo da história.
Valuation parado não é sinônimo de empresa parada
Em janeiro, a etiqueta de 2021 reapareceu com outro significado. Segundo o Money Report, o ranking da CB Insights apontou a Rappi como o unicórnio mais valioso da América Latina, com os mesmos US$ 5,25 bilhões, à frente do QuintoAndar (US$ 5,10 bilhões) e do C6 Bank (US$ 5,05 bilhões). Como observou a Bloomberg Línea, a liderança veio em meio a uma forte correção nos valores das empresas da região — ou seja, a Rappi não subiu, o resto desceu.
Para o empreendedor, a leitura prática é direta: manter o valuation em um ciclo de queda já é um resultado. E o critério do investidor mudou de eixo. Em entrevista à Forbes Colômbia, o cofundador e CEO Simón Borrero disse que a companhia completou quatro trimestres de rentabilidade, retomou a expansão e avalia abrir capital em 2026. À Bloomberg Línea, ele afirmou que a empresa reinveste 100% do lucro nos mercados em que atua, sem distribuição aos sócios. A Bolsa de Nova York é o destino considerado.
A conta ficou mais cara no Brasil
O pano de fundo é a guerra de aplicativos de entrega. Ainda segundo a Exame, o iFood anunciou R$ 17 bilhões até março de 2026, a Keeta (do grupo chinês Meituan) prometeu R$ 5,6 bilhões em cinco anos, a Rappi colocou R$ 1,4 bilhão até 2028 e a 99Food, R$ 1 bilhão — num mercado que, pela consultoria Statista, deve movimentar US$ 21 bilhões no país. A Rappi é a principal rival do iFood, mas com menos de 10% de participação no Brasil, conforme apurou a Bloomberg Línea.
A resposta operacional veio na gestão. Em julho, a empresa anunciou Guillermo Formigoni como novo general manager no Brasil, no lugar de Felipe Criniti, que segue até o fim do ano à frente da Rappi Cargo, a unidade B2B de logística. De acordo com a Forbes Brasil, o executivo argentino tem quase 30 anos de experiência em bens de consumo e se reporta ao COO global, Ajay Mittal. Segundo o Mobile Time, a companhia cita como pilares dessa fase a expansão do sortimento na categoria Turbo, de entrega ultrarrápida, e parcerias com Lojas Americanas, Cencosud, OpenAI, Amazon e PicPay.
O que observar daqui para a frente
- Se o IPO sai de fato. Uma abertura de capital em Nova York recolocaria preço de mercado na empresa — e serviria de régua para todo o ecossistema latino-americano.
- Como a Rappi financia a briga. Dívida e parcerias comerciais substituíram megarrodadas de equity. É o caminho de quem não quer diluir sócios em um valuation que não subiu.
- O efeito para quem vende pelos apps. Com quatro plataformas queimando caixa por participação, restaurantes e varejistas têm mais poder de negociação em taxas e condições agora do que terão depois da consolidação.
A lição para PMEs e fundadores é menos glamourosa do que a manchete de 2021: valuation é uma fotografia de um momento de mercado, não um placar permanente. O que sustenta a empresa em 2026 é margem, disciplina de caixa e capacidade de executar — exatamente o que os investidores passaram a cobrar antes de assinar o cheque seguinte.
Núcleo de apuração do Pulso. Acompanha o noticiário de negócios e tecnologia e reescreve os fatos com as fontes citadas e linkadas.