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Portugal discute virar exportador global — mas só 3,5% das empresas exportam

Fórum da AICEP reuniu empresas no Porto para debater competitividade; dados do Eurostat mostram base exportadora estreita, e o diagnóstico português ecoa no Brasil.

O Palácio da Bolsa, no Porto, foi o palco do Fórum AICEP 2026, realizado em 30 de setembro sob o tema “Portugal no Mercado Global: Competitividade e Futuro”. De acordo com a própria AICEP, a agência pública portuguesa de investimento e comércio externo, o encontro reuniu empresários, especialistas e autoridades para discutir como as empresas do país podem crescer fora de casa e atrair investimento estrangeiro. O evento foi transmitido ao vivo pelo LinkedIn da agência.

A narrativa oficial é de afirmação: empresas portuguesas competindo em cadeias globais, com marca e tecnologia. Os números do comércio externo, porém, contam uma história mais dura — e é justamente esse contraste que interessa a quem empreende no Brasil e olha para a Europa como mercado.

Em números

3,5%
parcela das empresas portuguesas que exportam acima do limiar estatístico do Eurostat, abaixo da média da União Europeia
998
empresas alcançadas pelas sessões da AICEP sobre economia de defesa em 2025
35%
fatia das exportações portuguesas que sai da região Norte do país
€ 1,8 bi
exportações de Portugal para os PALOP em 2024

Quem esteve na mesa no Porto

Segundo a AICEP, a manhã foi dedicada a visão estratégica, internacionalização e investimento, com relatos de empresas como Casa Mendes Gonçalves, LMA – Leandro Manuel Araújo e Aloft, ao lado de grupos internacionais instalados em Portugal, como Synopsys, Tridonic e Critical Software. Um dos painéis centrais tratou de um tema pouco glamouroso, mas decisivo para PMEs: como fornecedores locais entram nas cadeias de valor de multinacionais já presentes no país, com a participação da farmacêutica Hovione e da brasileira WEG.

A discussão sobre a Marca Portugal coube a Francisco Teixeira, da WPP Portugal, e a Fernando Daniel Nunes, da Vista Alegre/Visabeira. Conforme a Forbes Portugal, o fórum marcou também a primeira fala pública de Ana Casaca, nomeada presidente da AICEP e que assumiria o cargo em 1º de outubro, com uma intervenção sobre inovação, talento e ambição global. O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, e o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, também participaram. Como registrou o Hipersuper, a agência descreveu o programa como um cruzamento entre os desafios da economia nacional e a capacidade de crescer em mercados internacionais.

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O número que incomoda: base exportadora estreita

O ponto cego do discurso aparece nas estatísticas europeias. Em análise publicada pelo ECO, dados do Eurostat indicam que apenas 3,5% das empresas portuguesas exportam acima do limiar estatístico — proporção inferior à média da União Europeia. O diagnóstico do texto é claro: há muitos exportadores pequenos, pouca escala e valor agregado baixo, com escassez de empresas de médio porte capazes de sustentar presença internacional. Isso deixa a economia mais exposta a choques externos e ao humor da demanda turística.

A concentração geográfica reforça o quadro. Em artigo de opinião no Jornal de Notícias, registrou-se que o Norte de Portugal concentra cerca de um terço das PMEs do país e aproximadamente 35% das exportações, em setores como calçado, têxteis, componentes automotivos e vinho. O mesmo texto aponta que as vendas portuguesas para os PALOP somaram 1,8 mil milhões de euros (cerca de € 1,8 bilhão) em 2024, com Angola na liderança, seguida de Cabo Verde e Moçambique.

A aposta: capacitação, defesa e IA aplicada à exportação

A resposta institucional passa por treinar empresas em vez de apenas promovê-las. Em balanço divulgado pela AICEP, o programa de capacitação voltado à economia de defesa impactou 998 empresas em 2025, e o workshop sobre estratégia e oportunidades no setor reuniu 607 participantes, tornando-se a ação de maior adesão. Entre as empresas participantes, 93,3% consideraram os temas relevantes e 99,4% disseram que recomendariam as iniciativas. Para o administrador Paulo Rios de Oliveira, a capacitação virou fator crítico de competição internacional.

A agenda tecnológica segue o mesmo caminho. A Academia AICEP lançou o programa “Exportar com Inteligência Artificial”, com foco em usar IA para mapear mercados, analisar tendências e ganhar eficiência nos processos de exportação — uma formação desenhada para empresas que não têm equipe de inteligência de mercado.

O que isso muda para quem empreende no Brasil

Três leituras práticas:

  • Fornecer para multinacional é rota de exportação indireta. O painel com Hovione e WEG mostra que entrar na cadeia de um grande grupo instalado no país pode ser mais rápido do que abrir um canal próprio no exterior.
  • Escala pesa mais que ineditismo. O gargalo português é a falta de empresas médias com fôlego para sustentar operação internacional — o mesmo obstáculo que trava PMEs brasileiras após o primeiro embarque.
  • Portugal segue como porta de entrada. Autoridades dos dois países já realizaram seminário empresarial em Brasília, segundo a Câmara Portuguesa no Brasil, com o diretor da AICEP no Brasil, Francisco Saião Costa, defendendo a imagem de um “Portugal moderno, competitivo”.

O cenário externo também exige cautela. Conforme o ECO, a Alemanha — mercado-chave para a indústria europeia — deve crescer cerca de 1,0% em 2026, em recuperação apoiada por investimento público e por um fundo de 500 mil milhões de euros para infraestrutura e clima.

O que observar nos próximos meses: como a nova presidência da AICEP traduzirá o discurso de valor agregado em instrumentos concretos, se os programas de capacitação em defesa e IA gerarão novos exportadores e se a fatia de empresas exportadoras sai do patamar de 3,5%. Para o empresário brasileiro, o recado é operacional: antes de mirar a Europa, mapeie as multinacionais já instaladas aqui e dispute a cadeia delas.

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