Itaú vira sócio da Simile, a IA de US$ 2 bi que simula clientes
Via Itaú Ventures, o banco entrou na extensão da Série B da americana Simile, que cria "usuários sintéticos" para testar produtos e preços antes do lançamento.
O Itaú Unibanco deixou de ser apenas cliente e virou sócio de uma das startups de inteligência artificial mais badaladas do Vale do Silício. Por meio do Itaú Ventures, seu braço de corporate venture capital, o banco anunciou em 22 de setembro a entrada no capital da Simile, empresa americana que desenvolve modelos de IA capazes de simular como pessoas, organizações e mercados reagiriam a uma decisão antes que ela seja tomada. O aporte é minoritário e o valor não foi divulgado.
Em números
- US$ 2 bi
- avaliação da Simile na Série B de julho de 2026
- US$ 200 mi
- tamanho da Série B liderada pela Greenoaks, cuja extensão recebeu o Itaú
- US$ 100 mi
- Série A anunciada em fevereiro, quando a empresa saiu do stealth
- US$ 300 mi
- total captado pela startup em cinco meses
De cliente a sócia em cinco meses de mercado
Segundo o Times Brasil, o investimento integra a estratégia batizada pelo banco de AI First e transforma em participação societária uma relação comercial que já existia: o Itaú afirma ter sido o primeiro cliente da Simile na América Latina, usando a tecnologia em pesquisas com clientes e em projetos de cocriação desde os estágios iniciais da empresa.
A operação é uma extensão da Série B de US$ 200 milhões liderada pela gestora Greenoaks, fechada em julho e que avaliou a companhia em US$ 2 bilhões. De acordo com o TechCrunch, aquela rodada teve ainda Index Ventures, Hanabi, Bain Capital Ventures, A*, Factory, Definition e o fundo de venture da rede de farmácias CVS Health, que também é cliente da startup.
O ritmo impressiona mesmo para os padrões atuais de IA: como mostrou o portal Startups, a Simile saiu do modo stealth em fevereiro com uma Série A de US$ 100 milhões e fechou a rodada seguinte cinco meses depois, somando US$ 300 milhões captados. A empresa é sediada em Palo Alto e foi fundada por Joon Sung Park, doutor em ciência da computação por Stanford e autor do artigo acadêmico que popularizou os "agentes generativos" — programas de IA com memória, reflexão e planejamento, capazes de imitar comportamento humano.
O que é, na prática, um "usuário sintético"
A promessa da Simile é substituir parte do trabalho de grupos focais e painéis de pesquisa por populações simuladas. Em vez de recrutar 500 consumidores para avaliar uma embalagem, um preço ou uma campanha, a empresa gera perfis artificiais e roda milhares de cenários em minutos. Em comunicado da própria startup, a Simile diz ter multiplicado a receita por cinco desde o lançamento, construído um modelo de fundação para comportamento humano e desenvolvido um "modelo de confiança" que estima a precisão de cada simulação. São dados divulgados pela empresa, sem auditoria independente. Entre os clientes citados estão CVS Health, Wealthfront, Deloitte e Gallup.
Para um banco, o apelo é direto: testar a reação a uma nova tarifa, a um fluxo de aplicativo ou a uma comunicação de cobrança sem expor a base real. O movimento se encaixa na agenda de IA que o Itaú vem acelerando — em julho, o banco lançou o ia.i, assistente de IA generativa no superapp, inicialmente para cerca de 300 mil clientes, com expansão prevista para toda a base até o fim de 2026.
Por que isso interessa a quem não é um banco gigante
O caso é um manual de corporate venture capital bem executado, e esse roteiro vale para empresas de qualquer porte que avaliam adotar IA. O Startupi resume a lógica: primeiro usar como cliente, medir o resultado e só então colocar dinheiro. O fundo do Itaú, criado em 2019, concentra teses em serviços financeiros, infraestrutura, cibersegurança e IA aplicada.
Três leituras práticas para gestores e empreendedores:
- Pesquisa fica mais barata e mais rápida, mas não vira decisão automática: simulação serve para descartar hipóteses ruins antes de gastar com produção e mídia.
- Vender para uma grande empresa pode virar rodada: contratos de cocriação com corporações são hoje a porta de entrada mais comum para o cheque de um CVC.
- Valuation de IA segue descolado da receita: US$ 2 bilhões em cinco meses de mercado mostram apetite, e também risco, para quem entra agora.
O ponto cego: dado sintético não é cliente real
O ceticismo em torno de público simulado é conhecido — modelos tendem a reproduzir estereótipos e a suavizar respostas, e erros em decisões de preço ou crédito saem caro. Daí a relevância do indicador de confiança que a startup diz ter criado. Para quem for testar ferramentas desse tipo, o caminho seguro é rodar a simulação em paralelo com pesquisa tradicional por alguns ciclos e comparar os resultados antes de aposentar o método antigo.
O que observar a partir de agora: se o Itaú começará a usar a tecnologia além de pesquisa — em crédito, cobrança ou precificação — e se outros bancos e varejistas brasileiros seguirão o mesmo caminho, comprando antes e investindo depois. É nessa fila que startups nacionais de dados e pesquisa precisam decidir se competem ou se viram fornecedoras do mesmo ecossistema.
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