Megarrodadas levam startups da Espanha a € 3,83 bi, mas base cai 8%
Dezesseis rodadas gigantes concentraram 67% do dinheiro investido em startups espanholas até setembro. Sem elas, o mercado encolheu.
As startups da Espanha levantaram 3,827 bilhões de euros nos nove primeiros meses de 2026, um avanço de 49% sobre o mesmo período do ano anterior, de acordo com a Forbes España, que divulgou o relatório trimestral do Observatório de Startups da Fundación Innovación Bankinter. O valor já supera em 22% todo o capital captado no ano cheio anterior, de 3,132 bilhões de euros.
O detalhe que muda a leitura: esse dinheiro veio em menos negócios. Foram 274 rodadas, 5% a menos que um ano antes. Ou seja, o ecossistema espanhol não está mais ativo — está mais concentrado.
Em números
- € 3,827 bi
- captados por startups espanholas de janeiro a setembro de 2026 (+49%)
- 274
- rodadas no período, 5% a menos que um ano antes
- 16
- megarrodadas (acima de € 50 mi), que somaram € 2,56 bi
- 67%
- do capital total ficou nessas 16 operações
- € 1,267 bi
- é o que sobra ao excluir as megarrodadas — queda de 8%
Dezesseis cheques explicam dois terços do mercado
As chamadas megarrodadas — operações de 50 milhões de euros ou mais — foram 16 até setembro e reuniram 2,56 bilhões de euros, alta de 113% em um ano. Elas respondem por 67% de todo o capital investido, contra 58% no fechamento do primeiro semestre, segundo a revista Capital.
Retire essas 16 operações da conta e o cenário vira: restam 1,267 bilhão de euros em 258 rodadas, queda de 8% em volume e de 7% no número de negócios, conforme o despacho da Europa Press publicado pelo Press Digital. É o mercado do dia a dia — o das rodadas de 1 a 20 milhões — que está encolhendo, enquanto o topo infla a estatística.
Só no terceiro trimestre entraram cinco novas megarrodadas na lista: Multiverse Computing (500 milhões de euros), Open Cosmos (300 milhões), Fever (217 milhões), HappyRobot (130 milhões) e iPronics (108 milhões). O grupo completo inclui ainda PLD Space (288 milhões), Twinco (165 milhões), Factorial (129 milhões), Preply (128 milhões), EOS-X Space (120 milhões), Xoople (115 milhões), Citibox (100 milhões), ONA Therapeutics (74,2 milhões), Theker Robotics (74 milhões), Universal DX (62 milhões) e Attypics Photonics (50 milhões).
Barcelona retoma a liderança sobre Madri
No recorte geográfico, Barcelona acumula 1,175 bilhão de euros, alta de 14%, e voltou a passar Madri, que soma 1,153 bilhão com crescimento de 37%. A virada foi puxada principalmente pela operação de 300 milhões da Open Cosmos, de acordo com a Forbes España — no primeiro semestre, a capital estava à frente.
Fora do eixo Madri–Barcelona, quatro operações somaram 958 milhões de euros: Multiverse Computing, em San Sebastián; PLD Space, em Elche; iPronics, em Valência; e Universal DX, em Sevilha. A rodada da Multiverse, de 500 milhões, foi a maior injeção privada já registrada no país e avaliou a empresa basca em 1,5 bilhão de euros, segundo o Merca2. A tecnologia da companhia comprime modelos de inteligência artificial para rodar com menos energia e infraestrutura.
O que o dinheiro grande esconde
O próprio Observatório já vinha sinalizando a distorção. No balanço do primeiro semestre divulgado pela Fundación Innovación Bankinter, as startups espanholas haviam captado 2,059 bilhões de euros em 193 rodadas. Excluídas as 11 megarrodadas do período, o volume caía para 862 milhões, 9% menos que um ano antes. No mesmo relatório, as fases iniciais seguiam como motor em número de operações — 81 rodadas seed (alta de 50%) e 46 pre-seed (queda de 25%) —, mas com cheques pequenos.
A composição setorial também muda conforme o filtro. No primeiro semestre, Space & Navigation liderou em volume com 385,6 milhões de euros, seguido de Fintech/Insurtech (245,4 milhões) e Biotech & Life Sciences (181 milhões); sem as megarrodadas, quem assume a ponta é software, com 171,2 milhões em 38 operações, à frente de energia e novos materiais, segundo o Diario Jurídico. Em outras palavras: as rodadas gigantes distorcem o ranking de setores.
O que isso diz para quem empreende no Brasil
O padrão espanhol é o mesmo que se repete em vários mercados, inclusive no brasileiro: capital abundante no topo, escassez no meio. Três leituras práticas:
- Manchete não é termômetro. Um recorde de volume pode conviver com queda no número de rodadas. Para quem vai captar, o indicador relevante é a quantidade de negócios na sua faixa de cheque, não o total do ano.
- O vale está no meio do caminho. Quem já passou do seed e ainda não é candidato a cheque de 50 milhões enfrenta o trecho mais seco. Vale esticar o caixa e priorizar receita antes de abrir rodada.
- Deeptech e espaço atraem cheques grandes. Espaço, fotônica, robótica e IA aplicada à eficiência computacional concentraram as maiores operações espanholas — setores com barreira técnica alta e contratos de longo prazo.
O que observar no próximo trimestre: se o volume sem megarrodadas voltar a cair no fechamento do ano, a leitura deixa de ser "ecossistema em alta" e passa a ser concentração de capital em poucas apostas. A Fundación Innovación Bankinter atualiza os dados a cada trimestre, e o relatório anual será o teste definitivo.
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