Startups de defesa captam US$ 35,4 bi — e o conselho é ir ao quartel
Especialistas portugueses dizem que inovação em defesa só vira contrato com relação de confiança com os militares. No Brasil, Marinha e ABDI abrem portas para startups.
Quem quer vender tecnologia para as Forças Armadas não começa por um pitch deck: começa indo ao campo. Essa foi a mensagem central de um painel sobre inovação em defesa realizado nesta segunda-feira em Lisboa e relatado pelo jornal português ECO. Para Jorge Pimenta, diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes, Luís Oliveira, CEO da Fibrenamics, e Ricardo Pinheiro Alves, presidente da idD Portugal Defence, contratos duradouros no setor nascem de uma relação de confiança com os militares — construída no terreno, com quem opera o equipamento, e não em reuniões comerciais.
Em números
- US$ 35,4 bi
- captados por startups de defesa no mundo no 1º semestre de 2026, em 415 rodadas (PitchBook)
- US$ 91 mi
- tíquete médio das rodadas do setor no segundo trimestre
- R$ 150 mil
- prêmio total do edital ABDI/FIESC para startups de defesa em 2026
- 30%
- redução de peso em capacetes desenvolvidos pela Fibrenamics
O recado vale para o Brasil por um motivo simples: o dinheiro mudou de lado. Startups de defesa captaram US$ 35,4 bilhões em 415 rodadas no primeiro semestre de 2026, segundo dados da PitchBook compilados pelo Startupi. O número de transações caiu, mas o tíquete médio subiu para US$ 91 milhões no segundo trimestre — sinal de consolidação, com cheques maiores para menos empresas. O caso extremo foi a rodada Série H de US$ 5 bilhões da Anduril, destinada a erguer uma megafábrica automatizada de mísseis e sistemas autônomos.
Para efeito de comparação, o venture capital global somou US$ 510 bilhões no mesmo semestre, recorde histórico, segundo levantamento da Crunchbase divulgado pelo InfoMoney. Ou seja: defesa ainda é uma fração do bolo, mas uma fração que cresce por razões geopolíticas, não por hype de produto.
O que os especialistas recomendam antes de entrar
O painel português, segundo o ECO, produziu uma lista de conselhos bem pouco glamourosa — e justamente por isso útil para quem administra caixa curto:
- Evitar a dispersão. Defesa é um mercado de ciclo longo; tentar atacar várias frentes ao mesmo tempo costuma queimar capital.
- Não forçar uma aposta que não seja estratégica para os sócios fundadores e acionistas da empresa.
- Checar se há recursos financeiros e humanos suficientes para desenvolver soluções às forças de segurança ou aos ramos das Forças Armadas.
- Apoiar-se em instituições com experiência — no caso português, o Balcão Único da Defesa — e avaliar as chamadas do Fundo Europeu de Defesa.
Pinheiro Alves, da idD, resume o ponto de virada: o "chip tem de mudar" dentro das empresas, que precisam entender as necessidades reais dos militares antes de desenhar produto. No passado, diz ele, esse contato falhava porque defesa não era prioridade empresarial. A Fibrenamics, associação de Guimarães que funciona como ponte entre academia, indústria e forças armadas e de segurança, é o exemplo prático citado: desenvolveu capacetes cerca de 30% mais leves, materiais de maior proteção e tendas para resposta rápida a catástrofes.
Financiamento é o gargalo — inclusive na Europa
Mesmo com o mercado aquecido, o dinheiro não chega com facilidade a quem é pequeno. Um artigo de opinião publicado pelo ECO lembra que a Comissão Europeia identificou, em estudo de 2024 sobre acesso a capital próprio, um déficit médio de 2 bilhões de euros para as PMEs europeias do setor, com cerca de 40% delas classificando o acesso a financiamento como difícil ou muito difícil. Somam-se aí licenciamentos, certificações, requisitos de compliance, controles de exportação e a lentidão da contratação pública.
Do lado do comprador, o debate europeu virou corrida contra o relógio. Portugal garantiu cerca de 5,8 bilhões de euros no mecanismo SAFE, criado pela União Europeia com até 150 bilhões de euros em empréstimos para investimento em defesa, e criou uma estrutura nacional para gerir e executar esses recursos até 2030, conforme o Jornal Económico. Em outro painel do mesmo evento, também noticiado pelo ECO, José Neves, presidente do AED Cluster Portugal, defendeu que o ecossistema se organize para ter, em 2030, um cluster nacional capaz de atender demandas permanentes — das forças portuguesas e estrangeiras. Ele aponta que a incorporação da indústria nacional na compra de fragatas ficou em 8,3%, e critica o tempo curto para coordenar a resposta do setor.
No Brasil, as portas já estão abertas (e são institucionais)
O empreendedor brasileiro tem caminhos equivalentes, e todos passam pela mesma lógica de aproximação institucional. A Marinha colocou em operação o Centro de Inovação Estratégico da Marinha do Brasil (CIEMB), no Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro, e criou o programa Conexão Marinha, com mentorias, pré-incubação e incubação de projetos, além de uma frente específica para empresas com tecnologias já consolidadas, segundo a Agência Marinha de Notícias. A Força também trabalhava na elaboração de um edital para selecionar empresas e startups.
Na indústria, a ABDI lançou com a FIESC o Edital de Concurso nº 001/2026, com R$ 150 mil em prêmios — R$ 15 mil para as duas melhores soluções em cada categoria — voltado a startups brasileiras que atuam em VANTs, cibernética, têxtil técnico, aeroespacial e naval. De acordo com a ABDI, os critérios incluem inovação, viabilidade técnico-econômica, dualidade de uso (civil e militar) e nível de prontidão tecnológica (TRL), e as vencedoras expõem no estande da agência na SC Expo Defense, em Florianópolis.
O que observar
Três coisas merecem atenção de quem avalia entrar nesse mercado. Primeira: o prêmio em dinheiro raramente é o ponto — o valor está no acesso a compradores, integradores e investidores. Segunda: a dualidade de uso é o que torna a aposta financeiramente defensável, porque permite receita civil enquanto o ciclo militar amadurece. Terceira: TRL e certificação viraram linguagem obrigatória; sem entender requisitos técnicos e regulatórios, nenhuma demonstração convence.
Se a sua empresa cogita o setor, o roteiro prático é curto: mapeie qual força ou órgão tem a dor que você resolve, procure os canais formais de inovação aberta (como o CIEMB, na Marinha, e os editais da ABDI), acompanhe eventos setoriais onde os militares estão presentes e só então invista em desenvolvimento dedicado. O conselho dos portugueses continua valendo aqui: confiança se constrói no terreno, e é ela que se converte em contrato.
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