Andrea Salustri transforma esferovite em arte em Évora
Artista italiano apresenta espetáculo 'Matéria', que usa poliestireno para provocar nova percepção sobre consumo e objetos do cotidiano.

Em uma inusitada fusão entre arte contemporânea e crítica social, o artista italiano Andrea Salustri apresenta nos dias 29 e 30 de outubro, no Salão Central Eborense, em Évora, a performance Matéria, espetáculo que coloca a esferovite — material descartável comum em embalagens — no centro da cena. A apresentação faz parte da programação de Évora_27, Capital Europeia da Cultura, e propõe uma mudança radical na forma como o público enxerga objetos do cotidiano segundo o ODigital.pt.
Do lixo à linguagem artística
A performance utiliza poliestireno expandido (EPS), conhecido popularmente como esferovite, em formas como esferas e placas, que ganham movimento por meio de correntes de ar geradas por ventiladores. Em vez de ser o foco da apresentação, Salustri atua como um facilitador, criando as condições para que o material ganhe vida própria. Conforme explicou ao ODigital.pt, o objetivo é provocar uma nova percepção sobre um material normalmente associado ao descarte.
“É uma performance com poliestireno, aquele material branco que utilizamos nas embalagens. O espetáculo procura mudar a forma como percecionamos este material”, afirmou o artista. A escolha do EPS não é casual: ele simboliza o consumo acelerado e o descarte imediato de objetos, tema central da reflexão proposta por Salustri. O uso do poliestireno como protagonista artístico desafia a noção de valor, mostrando que até resíduos comuns podem ser recontextualizados como elementos centrais de uma narrativa estética e conceitual.
Recuperar a admiração do mundo
Para o criador, a sociedade atual perdeu a capacidade de se maravilhar com o que a rodeia. “Conseguir ver magia à nossa volta é uma capacidade que temos quando somos crianças. Nascemos com ela, ficamos maravilhados com o mundo e temos curiosidade em relação a tudo. Mas, quando crescemos e nos tornamos adultos, tudo se torna cinzento, tudo se torna funcional”, disse em entrevista ao ODigital.pt.
Andrea Salustri defende que recuperar essa sensibilidade é essencial para transformar a relação com os objetos e com o consumo. “Passamos a viver com objetivos e coisas que temos de fazer. O espetáculo procura levar-nos de volta à descoberta de algo que já conhecemos muito bem, que normalmente recebemos quando compramos alguma coisa e depois deitamos fora”, explicou. Essa abordagem resgata o potencial lúdico e criativo de materiais subutilizados, convidando o espectador a repensar o ciclo de vida dos objetos.
Som, movimento e presença
Além do movimento provocado pelo vento, o som é outro pilar da performance. Salustri utiliza microfones para captar os ruídos produzidos pelo atrito do poliestireno com o ar e entre si, transformando-os em música ao vivo. “Existe música, mas, mais importante ainda, existem muitos microfones, porque o próprio poliestireno fala e produz a sua própria música”, destacou.
Essa integração entre matéria, som e presença humana cria ambientes imersivos, nos quais o público é convidado a questionar o potencial oculto em materiais tidos como inúteis. “Podemos olhar para esse material de uma forma diferente e tentar perceber o que podemos fazer com ele. Pode dançar? Pode mover-se? Podemos brincar com ele?”, provocou o artista. A performance se constrói em torno da interação entre o acaso e o controle — os ventiladores movimentam os objetos, mas o resultado é imprevisível, gerando uma coreografia orgânica e efêmera.
O que isso muda para a sua empresa
- Repense o valor dos materiais descartáveis: A abordagem de Salustri inspira empresas a olhar com novos olhos para resíduos industriais ou de embalagem. Materiais como esferovite podem ser reaproveitados em projetos criativos, campanhas publicitárias ou experiências imersivas, agregando valor simbólico e sustentável.
- Estimule a criatividade com propósito: A inovação muitas vezes nasce da restrição. Ao usar um único material como ponto de partida, o artista mostra que limites podem impulsionar a invenção. Empresas podem adotar desafios semelhantes em workshops criativos, incentivando equipes a inovar com o que já têm.
- Conecte-se com causas de consumo consciente: O espetáculo dialoga diretamente com a crítica ao consumismo. Marcas que alinham suas narrativas a reflexões sobre sustentabilidade e reaproveitamento ganham relevância em um mercado cada vez mais sensível a impactos ambientais.
- Explore novas formas de experiência do cliente: A imersão sensorial criada por Matéria — com som, movimento e visualidade — é um modelo para marcas que desejam criar conexões emocionais com o público, especialmente em eventos, lojas ou instalações temporárias.
- Invista em parcerias com artistas: Colaborações com criadores podem trazer novas perspectivas para produtos, embalagens ou comunicação. A arte pode ser um laboratório de testes para ideias que depois se tornam estratégias comerciais.
O que o público — e especialmente empreendedores, criadores e gestores — deve observar é que a inovação muitas vezes está na mudança de perspectiva. A transformação da esferovite de resíduo para protagonista artístico mostra que o valor não está apenas no objeto, mas na maneira como ele é visto e utilizado. Nos próximos meses, vale acompanhar como iniciativas como a de Évora_27 impulsionam novas formas de arte pública, economia circular e criatividade aplicada — e como empresas podem se inspirar nesses modelos para inovar com propósito.
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